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Temperamento e seu Impacto no Desenvolvimento Socioemocional das Crianças

Orientação educacional - agosto-junho-2016O temperamento, definido como diferenças individuais em reatividade e autorregulação baseadas na constituição do indivíduo e observadas na emotividade, na atividade e na atenção da criança, tem uma história antiga. Recentemente, tornou-se também uma área de pesquisa cada vez mais importante sobre o desenvolvimento infantil. Atualmente, a influência do temperamento sobre a trajetória e os resultados do desenvolvimento foi reconhecida, mesmo em áreas que são tradicionalmente consideradas quase exclusivamente como resultado de socialização – tais como, problemas de conduta, empatia e desenvolvimento da consciência. Uma importante dimensão do temperamento é esforço de controle, definido por como “a capacidade de inibir uma resposta dominante para realizar uma resposta subdominante” ou a “eficiência de atenção executiva, que inclui a capacidade de inibir uma resposta dominante e/ou ativar uma resposta subdominante, planejar, e detectar erros. ”

O esforço de controle inclui a capacidade de gerenciar voluntariamente a atenção e inibir ou ativar o comportamento sempre que necessário para se adaptar, especialmente em situações nas quais a criança não está inclinada a fazê-lo. Por exemplo, as capacidades de focalizar a atenção na presença de distrações, de não interromper os outros enquanto falam, de permanecer sentado por algum tempo, e de forçar-se a realizar uma tarefa não muito interessante são aspectos do esforço de controle. Estas capacidades fundamentam o aparecimento da autorregulação, um marco importante no desenvolvimento da criança. Embora quase todas as crianças apresentem grandes progressos em relação ao esforço de controle, e, consequentemente, em sua autorregulação, ao longo dos primeiros cinco anos de vida, há grandes diferenças individuais.

Pesquisas sobre temperamento sugerem a importância da educação para ajudar cuidadores, professores e pais a perceber que o comportamento e as emoções da criança não são resultados apenas do aprendizado social. Pelo contrário, as crianças são diferentes desde pequenas quanto à sua reatividade e autorregulação, e podem seguir diferentes trajetórias de desenvolvimento.
Diferenças individuais relativas ao esforço de controle, embora parcialmente causadas pela hereditariedade, também estão associadas com a qualidade das interações pais-filhos. Práticas parentais afetuosas e apoiadoras, próximas e diretivas, parecem predizer níveis mais elevados de esforço de controle. Portanto, é importante que pais e demais cuidadores sejam estimulados a interagir com as crianças de modo a favorecer o desenvolvimento do esforço de controle.

Por fim, em determinados contextos, algumas crianças representam maiores desafios para os pais, professores e demais cuidadores devido ao seu temperamento. Nestes casos, os cuidadores podem se beneficiar de apoio e educação adicionais. Por exemplo, os cuidadores podem obter ajuda para evitar respostas negativas, que podem naturalmente ser suscitadas por crianças com temperamento mais difícil. Utilize uma linguagem positiva, diga o que a criança pode/deve fazer ao invés de apenas dizer não.

O surgimento da autorregulação baseada no temperamento, incluindo-se as diferenças individuais, é importante por várias razões. À medida que as crianças crescem, são consideradas pelas pessoas encarregadas de sua socialização como gradativamente responsáveis por seus próprios comportamentos. Crianças que não estão bem reguladas têm probabilidade de provocar reações negativas por parte de colegas e adultos. Além disso, as habilidades de atenção envolvidas no esforço de controle são provavelmente muito importantes para a aprendizagem. Por fim, as habilidades envolvidas no esforço de controle têm uma relevância evidente para a adaptação e para a competência social das crianças.

Bebês pequenos demonstram baixos níveis de esforço de controle. A atenção torna-se um pouco mais voluntária (mas ainda muito limitada) entre 9 e 18 meses de idade, quando os bebês aprendem a resolver conflitos, por exemplo, quando processam informações, corrigir erros e planejar novas ações. Utilizando uma tarefa que exige que crianças pequenas desloquem sua atenção e inibam o consequente comportamento, pesquisadores relataram que as crianças mostraram uma melhora significativa em seu desempenho aos 30 meses de idade, passando a apresentar um desempenho de alta precisão entre 36 e 38 meses de idade. Os bebês são muito limitados no componente comportamental do controle voluntário de comportamentos, por exemplo, a capacidade de inibir o comportamento sob comando, mas estas habilidades melhoram consideravelmente no terceiro ano de vida.4,8 A capacidade de inibir pelo esforço o comportamento em tarefas como “O Mestre Mandou” surge aproximadamente aos 44 meses de idade e é razoavelmente adequada aos 4 anos de idade, embora os avanços no esforço de controle continuem ao longo da infância.

Como os adultos podem ajudar as crianças a controlarem seu temperamento:

Todo comportamento tem um significado. Sempre que houver alguma situação é importante que o adulto observe, reflita sobre o comportamento e dê uma resposta que ajude a criança a lidar com a situação e desenvolver autorregulação e autocontrole.
•Caso a criança seja socialmente retraída coloque o que você acha que a criança está querendo em palavras para poder ajudar a externar os sentimentos dela, por exemplo “Você quer ajudar o amigo a construir um castelo? ”. Ou ainda ajude a criança a começar a brincar próxima e conectada com as outras crianças que sejam mais receptivas e que possam ajudar na socialização dela.
•Caso a criança tenha dificuldade em separações, sejam alegres quando separarem-se da criança e evitem despedidas prolongadas ou demonstração de preocupação. Permita que a criança traga um objeto querido para confortar-se. Brinque de esconder o rosto com as mãos ou lenços e depois aparecer de repente. (Crianças menores). Dê previsibilidade da rotina para as crianças, pontuando na rotina o momento que irá voltar para buscar.
•Se a criança perde o controle ao ser contrariada, observe o que estava acontecendo logo antes? Há padrões nessas situações? Há alguma situação que desencadeia esse comportamento? Reflita sobre o que pode causar a perda de controle da criança: frustração? Quando não consegue de fazer algo? Linguagem não suficiente para expressar seus pensamentos e sentimentos? Irritabilidade devido à fome ou cansaço? Permaneça calmo, fique por perto e cuide da segurança da criança. Valide os sentimentos da criança e explique as regras: “Você está irritada/descontente com essa situação, mas… ” e espere a criança se acalmar.

Jéssica Inocencio – Psicóloga

Bibliografia:
– Esforço para controlar o temperamento (autorregulação), Nancy Eisenberg, PhD. Arizona State University, EUA em: http://www.enciclopedia-crianca.com/sites/default/files/dossiers-complets/pt-pt/temperamento.pdf
– O temperamento e seu impacto no desenvolvimento infantil: comentários sobre Rothbart, Kagan e Eisenberg, Susan D. Calkins, PhD. University of North Carolina, EUA em: http://www.enciclopedia-crianca.com/sites/default/files/dossiers-complets/pt-pt/temperamento.pdf
– Caring for Infants and Toddlers in group: Developmentally appropriate practice, second edition, zero to three,2008.

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